23/07/2019

Sua independência financeira pode chegar antes da aposentadoria


Leitor pode simular na tabela em Excel com suas próprias premissas.

O homem, ante à complexidade da vida, muitas vezes se esconde sob frases feitas. Em tempos de Twitter, textos homeopáticos de inteligência se proliferam.

Crítico, sempre me incomodei com essas “pílulas de sabedoria”. “Casar só depois dos 30” é uma delas. Mas o casamento não é uma decisão unilateral, depende do outro. E se não houver alma que o queira, meu amigo(a) balzaquiano(a)?

Em finanças, também temos máximas que se perpetuam: “Morreu, deixa tudo aí!”; “Ninguém leva nada para o caixão”. Caso morra jovem, os gastos excessivos podem não fazer falta. Mas e se você for agraciado com uma vida longa? O desperdício da juventude cobrará seu preço. Jorginho Guinle, herdeiro de uma fortuna, acabou sua vida nonagenária dependendo de favores. Perguntado se não havia torrado muito dinheiro, respondeu ironicamente: “Não, apenas vivi mais do que imaginava”.

O aumento da longevidade torna o tema das finanças pessoais ainda mais importante. Além disso, com a "Nova Previdência", a idade mínima para se aposentar deve ser de 62 anos para as mulheres e de 65 anos para os homens (com exceção de algumas classes privilegiadas).

O conforto da aposentadoria ficou mais distante e o risco de ficar desempregado ao longo do tempo não é desprezível. Poupar não é mais um capricho ou um desvio de conduta restrito a sovinas, mas uma necessidade.

Na última semana, atualizei para o site do Valor Investe, um texto de 2012: “Como calcular a sua independência financeira?”. Em outras palavras, quanto é preciso ter hoje para parar de trabalhar? A resposta depende de duas variáveis: o montante dos seus gastos e os juros reais (parcela do rendimento da aplicação que supera a inflação). O primeiro depende do leitor, enquanto o segundo é derivado das condições macroeconômicas.

O padrão de vida é uma decisão da família. No livro “Liberdade Financeira ao Alcance de Todos”, Andyara Outeiro e Priscila Santos fazem um interessante exercício. Primeiro, elas pedem ao leitor para elencarem suas prioridades. Em seguida, pedem para observarem os seus gastos e verificaram se eles são coerentes com os valores citados. Se alguém prioriza a saúde não pode direcionar grande parte dos gastos para lanches em uma cadeia de fast food. Se alguém dá prioridade ao convívio com a família, não pode adquirir um carro caro que o deixe endividado e o obrigue a fazer trabalhos ou horas extras para suportar as prestações. As prioridades devem estar alinhadas com os gastos.

No meu artigo citado, existem duas opções para calcular o patrimônio necessário para deixar de trabalhar. Consumindo apenas os rendimentos gerados pela aplicação — e mantendo o principal intacto — ou gastando tanto o principal quanto os juros — não deixando qualquer herança para seus descendentes. Na segunda hipótese, o leitor precisa estimar quando morrerá. Caso sobreviva mais, terá um fim similar ao de Guinle. Quais outros riscos têm esse exercício? Não conseguir obter com as aplicações os juros reais simulados, aumentar o padrão dos gastos além do que projetou inicialmente (ou mesmo que mantenha os gastos, eles subam além da inflação que reajusta suas aplicações).

Nesses exercícios, não considerei qualquer renda derivada do trabalho ou de qualquer atividade. Apenas rendimentos vindos de aplicações financeiras. Mas caso o leitor consiga obter rendas extras e já possua um patrimônio inicial — fruto de herança, doação ou do seu trabalho — pode ser que consiga sua independência antes da idade mínima para a obtenção da aposentadoria.

Ao modelo de Excel utilizado no artigo anterior, acrescentei algumas colunas como a do patrimônio inicial, a dos rendimentos anuais do patrimônio e a da renda anual.

No exemplo, o indivíduo possui um patrimônio inicial de R$ 890 mil aos 45 anos. Essa aplicação proporciona uma renda anual real de 2%. Os gastos anuais são de R$ 60 mil por ano (R$ 5 mil mensais) e a renda do trabalho é de R$ 2,5 mil mensais. Após 65 anos, a renda virá da aposentadoria. Ele acredita que viverá até 80 anos. O patrimônio vai se reduzindo ano após ano. Quando, ele completar 80 anos, restarão R$ 972, suficientes para um enterro modesto.

Perceba que ele se permitiu gastar mais do que a renda auferida ao longo dos anos, deixou de trabalhar aos 60 anos e aposentou-se cinco anos depois. Sua independência financeira ocorreu antes da idade mínima para a aposentadoria.

Essa simulação pode ser utilizada pelo leitor com suas próprias premissas. Será que ainda vale manter o salário alto atual, fazendo o que não lhe agrada ou você já pode se dar ao luxo de buscar uma atividade que lhe traga mais prazer mesmo que com pior remuneração?

São indagações íntimas que apenas o leitor poderá responder. A planilha serve de auxílio. Ela apenas ensina que a disciplina pode abrir novos horizontes, permitir a realização de sonhos e lhe dar paz.

Fonte: Valor Investe


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