14/01/2019

Entenda por que preços sentidos no bolso de famílias de baixa renda são maiores que inflação divulgada


Na última terça-feira, a universitária Cíntia Felix, de 25 anos, enfrentou uma longa espera numa fila de empregos no Maracanã. Desempregada há dois anos e meio, ela espera encontrar uma vaga para ajudar nas despesas de casa, pagas pela mãe, Dezilda Leandro, com o salário de R$1000. Como as contas não fecham, por enquanto, as duas vendem docinhos e têm uma renda extra que varia entre R$400 e R$700.

Apesar de o salário mínimo subir 4,61% e os benefícios do INSS aumentarem 3,43%, com base no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), a inflação sentida no bolso do trabalhador de baixa renda é bem maior. De acordo com o professor do MBA de Finanças do Ibmec RJ, Filipe Pires, isso ocorre porque o cálculo é feito através de uma média nacional. Combustível e plano de saúde, por exemplo, entram na operação, mas têm pesos menores em famílias que ganham um salário mínimo, quando comparado a famílias de alta renda.

— Para o grupo de baixa renda, o combustível está atrelado ao gasto de transporte. Isso não significa que essa família tenha seu carro próprio, mas que interfere no preço do transporte público.

O gerente de índice de preços do IBGE, Fernando Golçalves, explica que o maior peso se concentra na alimentação, responsável por cerca de 30% das despesas das famílias que ganham entre um e cinco salários mínimos, seguido de habitação (18%), transportes (16%) e educação, que consome em torno de 3,14%.

No Rio de Janeiro, a alta dos preços ainda foi maior que a nacional, acumulando 4,17%, sendo que os responsáveis foram: o ônibus urbano, com variação de 16,18%; a refeição fora de casa, com 5,14%, o plano de saúde, com 11,25% e o tomate, que variou 108,23%.

— Como o tomate tem peso relativo importante na cesta das famílias, acaba impactando bastante no valor total. Em 2018, problemas de chuva ou secas regionais prejudicam a oferta de vários produtos agrícolas — comentou Golçalves.

Pires ainda acredita que o poder de compra irá diminuir:

— A probabilidade é grande que o poder de compra das famílias de baixa renda diminua em 2019. Pode ser ainda pior se o governo conseguir aprovação das medidas em relação à previdência e à estrutura fiscal. Caso isso aconteça, é possível que entre mais capital estrangeiro e a aceleração do crescimento gere uma demanda desequilibrada em relação à oferta. Isso inflaciona os produtos básicos, o que sempre impacta mais os mais pobres.

ALIMENTAÇÃO MAIS CARA NO RIO

De acordo com dados divulgados pelo IBGE na última sexta-feira (11), a variação de preços para famílias que ganham entre um e cinco salários mínimos no Rio de Janeiro foi a segunda maior do país, só ficando atrás de Porto Alegre, onde os itens subiram 4,56. A capital que menos teve acréscimo foi Brasília, com 2,24%.

Em geral, famílias de baixa renda têm boa parte do orçamento comprometidos com gastos de sobrevivência. Segundo o professor de economia Filipe Pires, a soma entre alimentação e moradia chega a ocupar 60% da renda.

— O ano passado foi especial para esses itens. Na alimentação, a greve dos caminhoneiros, as secas regionais e a alta diesel influenciaram nos preços. De janeiro de 2017 a meados de 2018, o botijão de gás aumentou mais de 20%, quando a inflação nesse período foi menos de 7%. A energia elétrica subiu mais de 9% e ainda há a questão da sobretarifa, a bandeira vermelha, que vai somando no orçamento familiar — explicou.

No estado do Rio, de acordo com a última Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos(DIEESE), divulgada neste mês, a cesta básica aumentou 11,47%, na comparação entre 2018 e 2017. O valor corresponde a 53,18% do salário mínimo e a 107horas e 38 minutos de trabalho.

Em dezembro de 2018, o salário mínimo necessário para a manutenção de uma família de quatro pessoas deveria equivaler a R$ 3.960,57, ou 4,15 vezes o mínimo do período, de R$ 954,00.

Fonte: Jornal EXTRA


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